Por um bom tempo eu não tive um médico aqui. A complicação de achar uma pessoa legal sem nenhuma indicação, a insegurança de simplesmente abrir o catálogo do plano de saúde e o já conhecido tratamento diferencial que recebemos no Brasil e que aqui seria motivo de estranhamento me fizeram empurrar com a barriga e parecer uma metralhadora de agendamentos a cada ida ao Brasil. Qualquer um que conversasse comigo, sabia que almoços, jantares e encontros eram encaixados de acordo com os meus médicos e dentistas.
Pois eu resolvi mudar as coisas. Até porque não dá pra não ter médico nenhum num país que é desenvolvido, mas não tem um mínimo SUS ou qualquer outra assistência pública. Isso na verdade torna-se mais um motivo de revolta, afinal a porcentagem de imposto cobrado aqui é maior do que no Brasil, e mesmo que capenga, a gente tem sim pra onde correr se não tiver como pagar um particular.
Revoltas a parte, vamos a minha história. Uma amiga minha meio na mesma situação achou uma médica "clínica geral", depois de 2 anos na procura, frustração e viagens ao Brasil. Aqui nos EUA é diferente e se usa ainda o conceito quase como do "médico de família". É um médico que você vê uma vez por ano, faz os exames básicos de sangue, te pergunta um monte de coisa e pronto. Eu no Brasil fazia tudo isso com a Julieta, minha gineco, mas aqui não. É geralmente esse clínico geral que te indica para a especialização necessária, partindo do ponto que as pessoas são ignorantes e não saberiam diferenciar a necessidade de um ortopedista ou um neurologista. Em partes até é verdade, pois no mundo dos hipocondríacos, por mais contraditório que se pareça, a ignorância em relação ao corpo humano assusta, e até entendo a necessidade de um médico que guie os pacientes.
Enfim, a minha amiga, indo no contra-fluxo da teoria da indicação, consultou uma gineco brasileira bem conhecida pelos New-Yorkers-Brasileiros e recebeu a indicação dessa clínica geral. Olha, sinceramente não me valhe tanto a característica de "ela fala português", mas eu não tinha mais ninguém, então marquei a consulta.
É uma experiência diferente. Primeiro fui atendida por uma enfermeira, que mede pressão, peso e altura, coisas que a Julieta sempre fez. Depois conversei com a médica, um bate-papo quase de programa de perguntas e respostas em 30 segundos. Mas a melhor surpresa é que você faz praticamente tudo ali: exame de sangue, eletrocardiograma, até vacina anti-tétano já tomei. Só ficou pendente um outro exame, uma coisa um pouco mais específica, mas que eu vou a um lugar que eles recomendam, faço e o laboratório entrega o resultado pra médica. Nesse ponto, as coisas são bem mais práticas, não têm lero-lero de ir a un laboratório, agendar dias e dias, buscar resultado e marcar "retorno". Pápum tá tudo ali. Mas ainda sinto falta das minhas conversas com a Julieta, sempre mandando beijos às amigas em comum.
Mar 16, 2009
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