Mar 28, 2010

Os mendigos e outros mais

A que ponto chegamos em que algumas referência da cidade deixam de ser prédios, restaurantes ou metrôs e passam a ser pessoas. Outro dia estava no meu trajeto casa-aula pensando em todos os mendigos que perambulam por NYC e como escreveria um post sobre essa parcela da população nova-iorquina que é tão famosa quanto os engravatados de Wall Street.

Alguns ícones que merecem ser descritos:

- uma senhora senta em frente à cabine telefônica da esquina noroeste da 49th com a Broadway (claro, quem hoje em dia ainda usa telefone público!?) e pede por trocados em uma melodia bem esquisita. Irritantemente esquisita e mono-tom, daquelas que gruda na sua cabeça durante os 8 segundos que você ouve e continua ali, quase como o som de um berimbau por mais uns 10 minutos. Não merece trocadinho.

- há um mendigo que fica na estação da Madison com a 53rd na linha azul que também merece destaque. Faz um tempo que não passo por lá, mas se não fosse louco, com certeza poderia ser narrador de jornal da rádio. O desenvolvimento das ideias que ele defendia, como por exemplo a exclusão dos imigrantes, dos gays e das mulheres era tão absurdo quanto bem elaborado. Doidinho interessante aquele.

- um outro maluquinho perambula pelos vagões da linha laranja pregando uma visão um tanto diferente de religião, criticando a igreja católica, o budismo, judaismo e defendendo uma religião que ele mesmo criou. Esse às vezes comove transeuntes e cria situações até um tanto assustadoras.

- um mendigo cantarola
"I will be there" andando pelo vagão da linha amarela. Não a música inteira, mas somente o refrão. Ou melhor, nem o refrão, ele canta mesmo duas frases: "Just call my name, I will be there", variando-as musicalmente de acordo com as próprias passadas. O detalhe: ele é cego. Então imaginem um baixinho (menor do que eu) andando e cutucando todos os pés cantarolando "I will be there", agradecendo ao som de moedinhas que caem na lata e acrescentando à melodia alguns "Oh, I'm so sorry!" porque cutucou alguém.

- e não são mendigos, mas já que lembrei do cantor, vale mencionar um dueto que violinistas que alegra minhas manhãs esporádicas. São dois meninos que tocam durante 2 ou 3 estações no vagão. E em pé, haja equilíbrio! As músicas são agradáveis e me fazem sorrir, diferentemente dos sanfoneiros e batuqueiros que às vezes ensurdecem o vagão. Foram os únicos até hoje que ganharam um trocadinho.

Mar 6, 2010

Meus 15 minutos no Queens

A revista Time Out da semana passada era focada na eterna disputa Manhattan/Brooklyn. Duas jornalistas - obviamente, uma moradora do Brooklyn e outra de Manhattan - discutiam porque era mais legal morar em um borough ou em outro. Os três tópicos eram as "opções culturais", "as melhores coisas estão no meu borough" e "aqui eu tenho a experiência novaiorquina de verdade".

Qual a minha opinião:

Desculpem-me os moradores do Brooklyn, mas ninguém me convence de que você vai encontrar a verdadeira experiência novaiorquina no Brooklyn. Isso é semanticamente incorreto! É quase como falar "encontre a verdadeira experiência carioca na Bahia". Eu acho que as opções culturais são diferentes, e cada borough oferece uma gama tão grande de opções que seria injusto de minha parte julgar a melhor. E as melhores coisas são também tão relativas, elas podem ser as melhores pra mim mas não pro outro, então também acho perda de tempo entrar nesse tópico.

O que não estava no debate mas todo mundo questiona é a diferença do custo de vida. Minha conclusão é de que para se morar relativamente bem no Brooklyn não há tanta diferença assim. Uma caixa de cereal custa menos, o aluguel é um pouco mais barato (aluguel médio em NYC = $2.613 contra $1.977 no Brooklyn), mas você acaba gastando mais em transporte e em taxi, quando acha algum que está disposto a atravessar as pontes e voltar sem uma corrida garantida.

E resumindo, a novairoquina escreveu: "se você mora em Manhattan, você não explica porque mora aqui. As pessoas dos outros boroughs sentem a necessidade constante de explicar o que aquela região tem para oferecer. Manhattan é Manhattan e todo mundo sabe disso." Eu achei a frase um pouco arrogante, mas ri por dentro.

E hoje eu me aventurei por 15 minutos no Queens. Estava indo a um workshop de Yoga indicado por uma amiga num dia daqueles que nada começa muito bem. Mas tudo bem, achei que a yoga ia me devolver a minha paz interior.

O bairro era bem feinho, e pela primeira vez me vi so-zi-nha em um quarteirão. Isso nunca acontece em Manhattan, que esquisito. Creepy. Mas enfim, aperta o passo e continua andando. Eu fiquei uns bons 5 minutos tentando entender o que a numeração significava. Desisti e liguei pra saber onde era. Nem Googlemaps entende o Queens! Ele me deixou numa esquina completamente diferente!

E chegando lá, descubro que na verdade a yoga é amanhã e eu confundi os dias. Ok, deixa que eu acho a paz interior mais tarde.

Vou rumo ao metro. Eu acho o metro, mas eu vim na linha E e a placa diz F, R, Z. Gente, tô tão maluca assim?? Nesse ponto eu começo a pensar que nem a minha paz nem a minha sanidade estão dentro de mim. Desço as escadas, subo de novo, abro o Googlemaps, abro o HopStop, e ambos me dizem que o metrô está lá. Desço de novo, pergunto pra uma moça e ela me fala: "Ah, às vezes o E passa aqui sim. Mas demora. MUITO. Então pega outro e troca lá em Manhattan". Murphy tá brincando né?

Ai claro que o primeiro trem que passa é o F, que fica a uns bons quarteirões da minha casa, mas eu resolvo pegar esse mesmo, não fazer baldeação e andar por Manhattan.

Ai que felicidade! Ruas com pessoas, brisa agradável no rosto, prédios lindos... Nem fede! Decidi até dar uma voltinha extra pelo meu bairro. E foi hoje que eu descobri:
I'm DEFINITELY a Manhattanite.

PS: Dea, eu gosto muito de você, então vamos da próxima vez eu vou ao Queens com um tour seu pra tirar meu trauma de hoje.